7.3.07


4.3.07

andarilhos


3.3.07

taí


escalare, escalare...


2.3.07


25.2.07

Tua


Naquele tempo, escrevia-se cartas. Jeannie guardava cópias das que mandava numa pasta azul. E naquele domingo, foi pra cama com a certeza de que a resposta da última chegaria na manhã seguinte. O correio não falhava - ademais, a cidade era pequena. Então, quando o carteiro chegou, Jeannie já tinha tomado café e caminhava no jardim.

- Bom dia, senhora!

- Que belo dia, Artur. O que tem para mim?

- Aqui estão. Fora as contas, este cartão.

- Hm. É da minha prima, a Lídia. Ela está passando uns dias nas termas aqui perto e... bom. Obrigada, Artur.

- Passe um bom dia, senhora!

Água, telefone, prestação da loja de tecidos - a última, ainda bem. E Lídia vai muito bem, obrigada, tirando férias em meio à natureza.

Mas.

Quando o pensamento começa ou é interrompido por um "mas", aí começa. Desventura! Eles se correspondiam há meses, desde que Jorge se mudara para Esterópolis, a trabalho. E mesmo antes, Jeannie sempre lhe escrevia, aquilo que não sabia dizer ao vivo.

É.

Como o correio nunca atrasava, e como fazia quinze dias que enviara a última carta, algo acontecera com Jorge.

Jeannie entrou no quarto, abriu o gavetão da escrivaninha, tirou a pasta azul. Espalhou as cartas pela colcha bordada.

Olhou pela janela: as luzes da prefeitura acenderam, o baleiro da esquina recolhia a mercadoria e já não gritava: pirulito! inhá-benta! tijolinho!

Jeannie tateou o abajur, acendeu a lâmpada.


Jorge querido


Hoje é dia de feira. Comprei abóbora, para fazer em calda, como você adora. Também arranquei inços do jardim e botei rolos nos cabelos. Agora, amarrei aquele lenço estampado de cor de rosa que você me deu.

Como vai o novo trabalho?

Está se adaptando?

Fico pensando se você está se alimentando, se continua com os exercícios, olha a gota, meu amor. Não facilita, por favor.

Será que você vai tirar uns dias na semana que vem para vir me ver?

Prometo trocar os lençóis e botar na cama a colcha que bordei quando nos conhecemos, lembra?

Às vezes me sinto tão sozinha, Jorge.

Ainda bem que o correio daqui nunca atrasa, tua resposta deve chegar em dois, três dias no máximo.


Te amo.


Tua


Jeannie

28.1.07

a festa começou

25.1.07

vestido-baile

...e botou o vestido-baile: na frente do espelho, segurou nas mãos, deu altura, o vestido soprava por causa do ar que a noite trazia pela janela e ganhava os contornos, de uma mulher assim, de uma mulher outrossim, de uma mulher acolá, de uma mulher lá, quando a valsa da esperança deu as primeiras notas, e o vestido, os primeiros passos; rodou no salão, perdeu as formas, ganhou na valsa o traço de riso de vestido, era um vestido da cor da rosa, e não, era lilás; olhou o espelho, e o espelho viu - que liso o tecido dando voltas! - e o espelho corou, a pele enrugou, do riso de ver o vestido de rosa; que rosa, não, era lilás, corou o vestido, vestiu o rosa, deu altura, cumprimentou; os contornos sopravam - não era por causa do ar que a noite trazia; de uma mulher em si, quando soaram as últimas notas, fecharam-se as portas do salão, perdeu-se o passo no risco que o vestido fazia, no chão; olhou o espelho, corou.

23.1.07

22.1.07

o pintor

piano

mulher de rosa na mão

Eu hoje acordei pensando que eu era mímica.
Depois fui me espreguiçando e vi que estou arrítmica.
Com o tempo, me aventurando, conclui que tísica.
Depois, com o sol fui me banhando e descobri a física.
Agora que já estou lá fora vou conferir minha métrica.
Disponho de um mundo de coisas mas não encontro estética.
Calculo que já vou chegando ao ponto da bulímica.
Mas vejo a lua despontando, o amor se mensurando, e a volta eu vou dar!


coisas boas:
http://www.christianeganzodecastro.blogspot.com
http://www.boucheville.blogspot.com

21.1.07

depois de modi

(fiz o desenho aí de cima depois de assistir o filme Modigliani, acho que pela quinta vez, que provavelmente não foi a última - a última parece tão longe...)

19.1.07

m o d i g l i a n i

Nu, Amedeo Modigliani
http://www.modigliani-amedeo.com

(Ouvindo Ode to innocence, Sasha Lazard)

“Quando eu conhecer tua alma, pinto teus olhos.”
Modigliani para Jeanne

Vi em Modigliani o cavalo. Não o cavalo nascido, não que ele tivesse na raiz o cavalo, nem no sentido eqüino, não. O cavalo em Modigliani vai mais pro relinchar de satisfação. O relincho sendo aquela manifestação moldável em si, a manifestação da vida simples, o relincho amoroso de exaltação, prazer, satisfação, gosto. E olha, a vida de Amedeo Modigliani foi cheia de desgostos. Daí a importância de se dizer: Modigliani, o homem que relinchava de prazer, de satisfação, de exaltação. Sobretudo na atitude de jogar tintas na palheta, misturá-las, escolher um pincel entre os muitos no copo sujo e alto, dar um gole na garrafa de tinto e, sem mais aquela, num soco não mudo mas espalhafatoso, assim, começar a pintura, e para que não lhe escapasse o sonho, o sonho por segundos nascido na idéia, o sonho que, por deus, não escapasse, oh vida de desgostos e rusgas, oh vida dura de Amedeo... por isso a rapidez com que lança o pincel na tela, para que lhe compreenda, lhe dê um colo esta tela muda, surda e branca, que se torne muito breve quase imediatamente a cúmplice do amor de Modi, do suor de Modi, da alegria, sim, da alegria!.... ponte diáfana entre o sim e o não, ponte esbodegada, e ainda ponte, entre a gota e a gota, entre o rito e o riso, oh, ponte de neve sobre as alegrias!!!! Galopa, então, o cavalo Amedeo Modigliani, galopa o puro sangue nunca domado Amedeo, galopa e salta sobre o vale profundo da agonia, e quanto precisa Modigliani, preciso, da mão mais rápida que o pensamento, do movimento mais veloz que o vento para lhe garantir uma pincelada a mais, quando – e só neste quando - o selvagem puro sangue relincha e não está acuado, mas sim revigorado na proeza do galope velocíssimo. Ave, Modigliani, o anjo da tristeza voa alto, para o além, se o cavalo selvagem expõe e compõe uma formosura, de formosuras mesmo engendrada, de formosuras mesmo cavada, de formosuras mesmo lavada, de formosuras mesmo erguida, de formosura, só dela, a beleza desta vida.

azul

O gelo é inanimado. Foi assim que ela reconheceu, quando te debruçaste sobre o ar, a longa construção de gelo no oceano coerente, uma construção tão convexa, em pontas côncavas, em depressões côncavas, o congelamento de séries, séries, séries de enormidades e dignidades, tu, ártico e tão grande sobre a água azul, também inanimada.

O gelo é digno. Foi assim que ela reconheceu, quando te debruçaste sobre o ar, a ártica construção de gelo no oceano grande, uma construção tão azul, em pontas inanimadas, em depressões inanimadas, o congelamento de séries, séries, séries de longitudes e coerências, tu, convexo e tão côncavo sobre a enorme água, também digna.

O gelo é enorme. Foi assim que ela reconheceu, quando te debruçaste sobre o ar, a grande construção de gelo no oceano ártico, uma construção tão convexa, em pontas enormes, em depressões enormes, o congelamento de séries, séries, séries de côncavos e dignos, tu, azul e tão longo sobre a coerente água, também inanimada.

O ar é azul. Foi assim que ela reconheceu, quando te debruçaste sobre o gelo, o grande oceano de gelo na construção ártica, um oceano tão digno, em congelamentos enormes, em depressões enormes, as pontas de séries, séries, séries de côncavos e convexos, a água, inanimada e tão coerente sobre o longo tu, também azul.

groenlândia

E repousou no teu corpo essas manchas de amores perdidos, amores traídos, amores congratulados e amores inventados e mornos, amores que queimam ao arder, amores que dão frio, amores de sempre, amores de iniciados, amores escuros, amores maduros e frouxos, amores enganados, ah, os primeiros amores - dessas manchas teu corpo ficou marcado, qual mapa geográfico. Depois, podia ver: aqui, a Ásia; mais abaixo, a África; e, num salto pra oeste e norte, a Groenlândia. Das zonas erógenas de teu corpo, contaste este segredo: qualquer coisa – dedo, língua, boca, braço, dente, fio de cabelo – te dava tesão bem ali, na Groenlândia, tesão de arrepiar o couro. E se ela soubesse a capital da Groenlândia diria que é justo no ponto que mais te dá de alucinar, na capital dessa misteriosa ilha. E deu de querer descobrir o nome da cidade do teu prazer, pegou o atlas geográfico do segundo grau e encontrou: a Groenlândia, capital Nuuk, é a maior ilha do mundo.

ah, dessa vez

“Passei longos períodos escrevendo muito – idéias, frases, cenas que vi ou pensei, que geralmente me vinham depois de já deitado na cama para dormir, à noite, geralmente quando eu ouvia música ou lia ou fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Nesses momentos, eu me levantava da cama e me sentava para escrever. Isso me tirou noites de sono, sono este que eu só encontrava na madrugada, ouvindo o canto dos primeiros pássaros. Isso não tem nada demais, como de resto tudo o que relato aqui, mas relatar é o que sei fazer, mais uma vez estava eu deitado, na companhia de um bom livro, quando me deu essa de escrever sobre o que fiz, para, quem sabe, encontrar quem sou, depois disso terminado. Passei também longos períodos de minha vida no silêncio, sozinho em minha casa, silêncio que nem quebrava com música, um silêncio profundo mesmo. Um silêncio que me dava medo. Esses períodos de mudez vinham depois de grande produção criativa, frenética. Hoje, posso pensar que era como a respiração: uma profunda inspiração, uma intensa expiração. Mas geralmente eu pensava ‘ah, dessa vez estou ferrado, me fodi, que vida é essa minha?’. Eu me assustava com o meu silêncio e minha pouca vontade de me expressar, de ser agradável a mim e aos amigos, de reconhecer algo como bom, legal, bacana. Sons me incomodavam, risadas me incomodavam, entusiasmos me perturbavam, eu estava num longo sentimento de solidão, de rompimento, eu e mais eu, uma combinação que quase sempre pensei ridícula e, no entanto, a única com que podia viver: eu e mais eu, e quantos mais, não sei. Na verdade, pensando bem, mesmo nos períodos de força criativa, sempre me senti absolutamente só. Um só que me entristece, até hoje. Acho que este talvez seja o sentimento que mais me manifeste: a tristeza. É uma vontade genuína de tristeza, mas uma revolta de haver tanto de triste em mim. Minha profissão correu, mais das vezes, ao largo, eu não comungava o trabalho com essa tirania do sozinho. Mas ela, a solidão, estava lá, sempre, como uma companhia de amor incondicional. Não sei se algum dia senti amor incondicional por mim mesmo, assim como penso que sou. Ao mesmo tempo, entendo que não existe a solidão como uma mulher bem vestida, de cabelos alinhados e olhar perscrutador. Nem no rosto de uma bruxa – a solidão não existe, a solidão é de uma vontade. E ainda que eu possa – porque meu intelecto atinge essa idéia – ainda que eu possa afirmar aqui que, pelo que disse antes, só posso concluir que tenha amor incondicional por mim mesmo, há um sentimento intransigente que não me deixa dizê-lo, a não ser que minta. Como dois mares distantes, muito distantes, há o eu que me prende aqui, que me quer aqui; e há o eu que me empurra para o abismo – é quando o eu que me quer aqui diz: fique.”

lá longe

Estava lá longe fazendo uma nova máscara de lágrimas misturada à lágrima verdadeira aos olhos molhados um pouco mais pra direita, mas não, ela não faz isso calculado, ela sofre de verdade, não é pra que tenham culpa e pena, mas agora nem ela acredita, os olhos molham e ela, longe, dizendo que isso é teatro, longe, longe, de meninos, de motocicletas, de teclas, de mesa branca, longe dos verdadeiramente molhados nos olhos, aqueles que sofrem de verdade, que não fazem o sofrimento mas vivem, ela não acredita que a si própria está desacreditando, molhando os olhos com intenções, pensa, de terceiras intenções vestida para machucar os outros, e dorme, dorme, dorme, lá longe, dorme de visita, de pestana aguada, faz palavras bonitas para que leiam, os que nunca lêem, mas um dia poderão, quando ela morta, então faz e corrige palavras porque fulano pode achar mal apanhado, repetitivo, sicrano pode dizer que ela foi uma riquinha travestida de sofredora, e os olhos estão baços, que ela acredite, lá longe, longe muito, por detrás, detrás é uma palavra literária, nem é mais, e pode ficar sendo, sendo, longe, as letras do teclado, as mais próximas dos dedos para fechar o cerco.

cative


Cative, uma multidão, gira nos calcanhares para alcançar o último da fila.
- Esta fila é pro Benjamim?
- Não sei. A gente vai ver Garfield.
- Obrigada.
Cative, uma multidão, gira nos calcanhares mais uma vez.
- Moço, onde é a fila pro Benjamim?
- Não tem fila ainda. A sala não foi liberada.
- Falta cinco minutos.
- Pode esperar por aqui, já vamos abrir.

Cative, uma multidão, pega um drops na bolsa e enfia na boca. Cumprimenta um cara conhecido. Como é mesmo o nome dele? Sem registro. Procura as chaves da casa no bolsinho interno da bolsa, sempre desconfiada de ter deixado a chave na porta do apartamento, ou no banco da lotação, ou. Sala um liberada. Cative, uma multidão, entra no cinema vazio. Escolhe a fileira do meio e a poltrona do meio. O cara sem registro é ator de telenovelas. Daí. E esse audiovisual de instruções de “como usar sua sala de cinema” é in-su-por-tá-vel. Também o barulho dos sacos de pipocas. E a perna do vizinho de trás batendo nas costas da poltrona.
Hoje você fez bonito, hein, Cative? O comercial do banco trinta horas também não dá mais pra agüentar. Da próxima vez, vai entrar atrasada na sessão. Faz favor! Essa menina se mima demais. Três livrarias num dia só. Nenhum desembolso. Há. Cative, você se supera. Mas o filme parece ser bom, pela primeira cena. Será que você consegue parar de fumar? Pé nas costas da poltrona. Queria dizer: olha, dá pra você parar de bater o pé nas costas da minha poltrona? Das dez mil e oitocentas vezes que já esteve num cinema na vida, umas dez mil setecentas e oitenta e nove vezes, seguramente, foram perturbadas por um pé. Sacos de pipoca não incomodam tanto, o barulho vai se incorporando. Essa atriz é linda. Nada nela é imperfeito. Nenhuma parte torta. Podia ter convidado a Nill. Mas ela até lixa as unhas durante o filme! Mesmo assim. Quanto cinema pra tantas horas. E que horas. Horas de sossego, de esfregação, de palavra. Deixa.

hello

Você acredita em bruxas?
Não?
Então vá
Na tabacaria do homem de óculos
Compre a brochura papel jornal
Aprenda encantamentos
Acione a rosa dos ventos
E creia:
As bruxas, não
Mas você é um bicho em extinção.