olá. tudo legal? tudo bem? tudo nos trinques? tudo em cima? como andam as coisas?
alô. as coisas andam com meios de transporte os mais variados - ultimamente, a pé, com um terceiro membro ora metendo-se a alçar vôo, ora enfiando-se rabo adentro. as coisas andam, ainda assim.
ontem eu estava numa festa onde pessoas se "pegavam". entao, a reuniao se concentrava na cozinha, e o resto da casa, às escuras, funcionava de palco para o brinquedo de pegar, que também era o brinquedo de "ninguém pode nos ver". aí, eu apareci no vao entre a cozinha e o banheiro, e uma das meninas me fez sinal para eu fazer silêncio. atrás dela, se escondia um dos meninos. nem pensei em acender alguma luz.
outro dia, fizeram uma ceia para a mae de um dos moradores da nossa casa. recolheram os vasinhos de maconha, abriram todas as janelas, ventava tipo sibéria, arrumaram as camas, esticaram tudo, conversaram gentis, limparam o banheiro, admiraram muito aquela mae que vinha e sentava à nossa mesa e ficava feliz de estar com o filho e seus amigos, es decir, nós todos estàvamos muito felizes de termos uma mae para jantar com a gente.
teve outra noite ainda em que me pediram para que eu tocasse violao, "uma brasileira, Eli"...
toquei Ovelha Negra, da Rita, eles me aplaudiram. como acham bela e sensual e redonda a língua brasileira!!!
somos um núcleo curioso. uma célula. um funcionamento. uma constelaçao.
ainda bem, irmao.
18.9.07
1.9.07
29.8.07
por que me descobriste no abandono?

suo embaixo dos braços no inverno de sete graus
eu suo baixando os degraus e desconfiando
desconfiando que de mim estão guardadas, por mim, as novidades?
mas que espécie de cara metade sou?
eu suo para onde vou
suo e sou
nos alinhavos de uma bainha que comecei, começo
e não canso
sempre me acontece
de pensar - ah, hoje, hoje, hoje!
olho fotografias e me descubro no abandono
eu não me esqueço, eu não me conheço?
oh, obrigada pelas lindas flores
oh, me irrito
oh, suo de aflita
oh, gravo a metade que sou
e as outras eu não largo, devagar,
caiu este amor aqui na minha mão.
eu suo baixando os degraus e desconfiando
desconfiando que de mim estão guardadas, por mim, as novidades?
mas que espécie de cara metade sou?
eu suo para onde vou
suo e sou
nos alinhavos de uma bainha que comecei, começo
e não canso
sempre me acontece
de pensar - ah, hoje, hoje, hoje!
olho fotografias e me descubro no abandono
eu não me esqueço, eu não me conheço?
oh, obrigada pelas lindas flores
oh, me irrito
oh, suo de aflita
oh, gravo a metade que sou
e as outras eu não largo, devagar,
caiu este amor aqui na minha mão.
25.8.07
gui-tar
às vezes eu me pergunto
por que sou tão deste lado
não faço do amor quase nada
nem fico sorrindo ao meu lado
pois eu me tenho toda hora
me como, me cuspo, me beijo
talvez eu não me entenda
mas hoje eu vou me mostrar...
raul, teus lábios de fel, tua boca dourada, tua pele infeliz
raul, tua pouca morada, teus cachos de uvas, por favor, me diz
que eu só tenho vertigens, só gasto fuligens e torço o nariz
e tu és muito dengoso, moroso, chistoso
e escreves com giz
(vou, vou, vou/vou fazer as malas/pegar esse trem/e comprar algumas balas)
22.8.07
fi(s)gada com queijo

São três horas da manhã/o bonde passou fiado/ouvi o grito de espera/acordei pra duvidar/não creio, não creio/são três horas da manhã/o grito me parte ao meio/sou grande sorriso e receio/numa esfera rumo ao mar/palavras de complicar/palavras tontas/são três horas da manhã/como figada/visto grosso casaco/vôo nos intervalos/a última vez que vi o bonde foi em 1967/três com dois não somam sete/espinhos na cama?
12.7.07
4.6.07
até que eu esqueca tudo isso e deixe a vida me cortázar
hoje conversei com julio cortázar. quem me ensinou? foi ele... de cabelos engraxados e rosto desenhado pela vida, ele arqueou as sobrancelhas cabeludas e me fez uma conversa de dentro para eu me agasalhar. estava muito frio no deserto dos corpos malcheirosos de um escritório em que se cumprem ordens, estava muito frio para eu poder falar. cortázar nasceu em bruxelas e viveu em buenos aires, cortázar casou tres vezes e viu que tinha vindo para nao entender... estas palavras.
entao eu passei de mao em mao a burrice.
entao eu fiz careta pra mim e ouvi cortázar dizer: "...esquece. viajei muito e traduzi bocas estranhas, nunca entendi o que diziam e mesmo assim escrevi tudo o que vivi buscando escrever tudo o que vivi."
entao a gente vive só por uma gota de sangue?
é.
julio, eu te amo.
entao eu passei de mao em mao a burrice.
entao eu fiz careta pra mim e ouvi cortázar dizer: "...esquece. viajei muito e traduzi bocas estranhas, nunca entendi o que diziam e mesmo assim escrevi tudo o que vivi buscando escrever tudo o que vivi."
entao a gente vive só por uma gota de sangue?
é.
julio, eu te amo.
27.4.07
desde drexler
cada um dá o que recebe
e logo recebe o que dá
nada é mais certo
nao há outra forma
nada se perde
tudo se transforma
(versaozinha para música de Jorge Drexler, Todo se transforma)
a cúpula de dentro do teatro
e o olho na cúpula que leva ao céu
jorge drexler gineteia a manada
e eu, eu, eu
nao sou mais o que fui
sou esta: a cúpula
no firmamento
no firme aumento de minhas dúvidas
acarinhadas, acalentadas, regadas todos os dias
pois que floresçam
pois que adoleçam
pois que me esqueçam
pois que se façam de pé
"... gira en el aire mi moneda..."
e logo recebe o que dá
nada é mais certo
nao há outra forma
nada se perde
tudo se transforma
(versaozinha para música de Jorge Drexler, Todo se transforma)
a cúpula de dentro do teatro
e o olho na cúpula que leva ao céu
jorge drexler gineteia a manada
e eu, eu, eu
nao sou mais o que fui
sou esta: a cúpula
no firmamento
no firme aumento de minhas dúvidas
acarinhadas, acalentadas, regadas todos os dias
pois que floresçam
pois que adoleçam
pois que me esqueçam
pois que se façam de pé
"... gira en el aire mi moneda..."
7.3.07
4.3.07
3.3.07
2.3.07
25.2.07
Tua

Naquele tempo, escrevia-se cartas. Jeannie guardava cópias das que mandava numa pasta azul. E naquele domingo, foi pra cama com a certeza de que a resposta da última chegaria na manhã seguinte. O correio não falhava - ademais, a cidade era pequena. Então, quando o carteiro chegou, Jeannie já tinha tomado café e caminhava no jardim.
- Bom dia, senhora!
- Que belo dia, Artur. O que tem para mim?
- Aqui estão. Fora as contas, este cartão.
- Hm. É da minha prima, a Lídia. Ela está passando uns dias nas termas aqui perto e... bom. Obrigada, Artur.
- Passe um bom dia, senhora!
Água, telefone, prestação da loja de tecidos - a última, ainda bem. E Lídia vai muito bem, obrigada, tirando férias em meio à natureza.
Mas.
Quando o pensamento começa ou é interrompido por um "mas", aí começa. Desventura! Eles se correspondiam há meses, desde que Jorge se mudara para Esterópolis, a trabalho. E mesmo antes, Jeannie sempre lhe escrevia, aquilo que não sabia dizer ao vivo.
É.
Como o correio nunca atrasava, e como fazia quinze dias que enviara a última carta, algo acontecera com Jorge.
Jeannie entrou no quarto, abriu o gavetão da escrivaninha, tirou a pasta azul. Espalhou as cartas pela colcha bordada.
Olhou pela janela: as luzes da prefeitura acenderam, o baleiro da esquina recolhia a mercadoria e já não gritava: pirulito! inhá-benta! tijolinho!
Jeannie tateou o abajur, acendeu a lâmpada.
Jorge querido
Hoje é dia de feira. Comprei abóbora, para fazer em calda, como você adora. Também arranquei inços do jardim e botei rolos nos cabelos. Agora, amarrei aquele lenço estampado de cor de rosa que você me deu.
Como vai o novo trabalho?
Está se adaptando?
Fico pensando se você está se alimentando, se continua com os exercícios, olha a gota, meu amor. Não facilita, por favor.
Será que você vai tirar uns dias na semana que vem para vir me ver?
Prometo trocar os lençóis e botar na cama a colcha que bordei quando nos conhecemos, lembra?
Às vezes me sinto tão sozinha, Jorge.
Ainda bem que o correio daqui nunca atrasa, tua resposta deve chegar em dois, três dias no máximo.
Te amo.
Tua
Jeannie
28.1.07
25.1.07
vestido-baile
...e botou o vestido-baile: na frente do espelho, segurou nas mãos, deu altura, o vestido soprava por causa do ar que a noite trazia pela janela e ganhava os contornos, de uma mulher assim, de uma mulher outrossim, de uma mulher acolá, de uma mulher lá, quando a valsa da esperança deu as primeiras notas, e o vestido, os primeiros passos; rodou no salão, perdeu as formas, ganhou na valsa o traço de riso de vestido, era um vestido da cor da rosa, e não, era lilás; olhou o espelho, e o espelho viu - que liso o tecido dando voltas! - e o espelho corou, a pele enrugou, do riso de ver o vestido de rosa; que rosa, não, era lilás, corou o vestido, vestiu o rosa, deu altura, cumprimentou; os contornos sopravam - não era por causa do ar que a noite trazia; de uma mulher em si, quando soaram as últimas notas, fecharam-se as portas do salão, perdeu-se o passo no risco que o vestido fazia, no chão; olhou o espelho, corou.
23.1.07
22.1.07
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